O Irã suspendeu oficialmente neste dia 18/07 seus compromissos no âmbito do “Memorando de Entendimento” assinado com os Estados Unidos, após acusar a Casa Branca de não cumprir suas obrigações, anunciou o vice-ministro das Relações Exteriores, Kazem Gharibabadi. Em declarações à televisão estatal iraniana, ele afirmou que os Estados Unidos violaram todos os compromissos assumidos no documento e deixaram de implementá-lo. “Da nossa parte, também suspendemos os nossos compromissos e já não os estamos a implementar”, afirmou Gharibabadi. O vice-ministro enfatizou que Teerã está atualmente concentrando seus esforços na defesa do país. Ele acrescentou que os Estados Unidos lançaram seus ataques enquanto as negociações estavam em andamento e afirmou que Washington provou mais uma vez que sua abordagem agressiva não produzirá resultados e recebeu a resposta correspondente.
Não por acaso, vários militares dos EUA foram mortos ou feridos em ataques iranianos a suas bases na Jordânia. O Comando Central dos EUA informou, em um comunicado no sábado, que dois militares americanos morreram em combate na Jordânia enquanto o Comando Central e seus aliados respondiam a ataques iranianos envolvendo mísseis balísticos e drones. O comunicado acrescentou que um militar continua desaparecido e que quatro militares americanos foram evacuados para hospitais jordanianos e, posteriormente, receberam alta.
Dias antes do anúncio da suspensão do “Memorando de Entendimento” com os EUA, enquanto o presidente iraniano Masoud Pezeshkian caminhava ao lado do caixão do líder supremo Ali Khamenei em Teerã, alguns dos enlutados vestidos de preto ao seu redor entoavam cânticos não em homenagem ao líder falecido, mas diretamente contra ele: “Morte ao conciliador”. Não muito longe dali, Abbas Araghchi, o principal diplomata do Irã que negociou um cessar-fogo com o governo Trump foi forçado a fugir do funeral depois que uma multidão atirou pedras nele em meio a gritos de morte, acusando-o de ser um “traidor vendido”.
A hostilidade dirigida a altos funcionários durante o funeral reflete uma denúncia que vem ganhando força entre as facções nacionalistas radicalizadas da República Islâmica há meses: a de que os líderes iranianos do período de guerra, que negociaram e assinaram o acordo com Washington, estão realizando um “golpe brando” contra a República Islâmica enquanto o novo líder supremo permanece praticamente sem qualquer contato com o povo.
Os membros das facções nacionalistas radicalizadas que compareceram em grande número ao funeral acreditam que, em vez de vingar a morte de Khamenei, as autoridades iranianas se renderam ao assinar um acordo que desafia as ordens do Líder Supremo Mujtaba Khamenei, filho e sucessor do falecido. Khamenei, porém, permanece fora da vista do público, sem se dirigir diretamente à nação nem exercer sua autoridade de forma visível, mesmo enquanto as autoridades negociam ou governam em seu nome.
Esses grupos denunciam que altos membros do Regime dos Aiatolás que governam e representam o país enquanto Khamenei permanece oculto de conspirar para consolidar o poder, suspendendo o Parlamento, desobedecendo às suas ordens nas negociações e tentando dispersar os protestos noturnos nas ruas, que se tornaram uma poderosa base de poder popular.
“Aviso ao povo do Irã: um golpe de Estado está a caminho?”, perguntou Mahmoud Nabavian, um parlamentar radicalizado e combativo, no canal X, dias antes do funeral de Khamenei. “Nestes momentos de despedida ao Imam [Khamenei] mártir, erguemos a bandeira da vingança pelo seu sangue e nos mantemos firmes contra o golpe”, escreveu ele dias depois. Na ausência de Mojtaba, o negociador-chefe Mohammad Bagher Ghalibaf, Pezeshkian e Araghchi tornaram-se as figuras mais visíveis no comando do Irã pós-guerra.
Apesar dos inúmeros apelos à unidade em tempos de guerra em todo o Irã, o funeral de Khamenei, que durou uma semana e foi morto no final de fevereiro em ataques aéreos israelenses coordenados com os Estados Unidos, tornou-se uma plataforma poderosa para os apoiadores mais radicalizados da República Islâmica. Eles aproveitaram a ocasião para intensificar as exigências de vingança contra seu líder por meio de uma guerra renovada com Washington e para declarar sua rejeição a qualquer acordo com Trump.
Agora, parece que o desejo deles foi atendido. Um frágil cessar-fogo entre o Irã e os EUA entrou em colapso esta semana, depois que a Guarda Revolucionária lançou ataques contra navios no Estreito de Ormuz para afirmar o controle da hidrovia. Isso provocou ataques retaliatórios de Washington e renovou as exigências para que a trégua fosse abandonada.
Nas semanas que antecederam o início das hostilidades, os setores nacionalistas radicalizados direcionaram seus protestos aos dirigentes que assinaram o acordo com os EUA. “Senhor Presidente, se as condições do líder não forem atendidas, então seremos nós, a espada e sua garganta”, advertiu Mohammad Ali Bakhshi, um “maddah” ligado à segurança — ou cantor religioso leal ao regime iraniano —, a Pezeshkian durante uma cerimônia. “Vamos trazer o inferno sobre você.”
“Eles estão tentando elevar o papel do Conselho Supremo de Segurança Nacional, ao mesmo tempo que diminuem o papel do líder supremo e do parlamento”, disse o parlamentar nacionalista Kamran Ghazanfari em uma declaração em vídeo no início de julho, referindo-se ao atual poder de decisão do conselho sobre os assuntos militares mais sensíveis do país. “Este é o golpe político que eles planejaram e estão executando passo a passo.”
Mahmoud Nabavian, o parlamentar nacionalista que se opõe veementemente ao acordo e tem sido uma das principais vozes a alertar para um “golpe”, foi destituído de seu cargo na Comissão de Segurança Nacional do Parlamento, juntamente com outro deputado crítico do acordo. Nabavian, que fazia parte da delegação de negociação do Irã antes de se voltar contra as conversas e tentar sabotar o acordo vazando o texto para a mídia antes de sua assinatura no mês passado, afirmou que a equipe de negociação iraniana estava desafiando as linhas vermelhas do líder supremo em suas conversas com os Estados Unidos. Ele e outros ecoam as opiniões do Jebhe-ye Paydari (a Frente de Resistência).
A ausência contínua de Khamenei, seu apoio condicional ao cessar-fogo, o crescente fortalecimento da Guarda Revolucionária e a presença maciça no funeral de seu pai encorajaram os setores nacionalistas radicalizados. “Minha sugestão é que nos dirijamos a uma das bases americanas na região, onde há centenas, talvez milhares, desses terroristas americanos”, disse o ex-ministro das Relações Exteriores iraniano e linha-dura Manouchehr Mottaki em uma entrevista televisionada na quarta-feira. “Tudo o que precisaríamos fazer é levar 100 soldados de volta ao Irã.”
Diversos grupos políticos iranianos não estavam satisfeitos com a proposta apresentada nos 14 pontos do chamado “Memorando de Entendimento” com os EUA. Seus dirigentes representam os setores mais radicalizados do nacionalismo burguês do país. Grande parte das críticas vem de uma fração nacionalista conhecida como Jebhe-ye Paydari (Frente de Resistência), cujos membros se consideram guardiões da Revolução Islâmica de 1979. Os Marxistas Leninistas sempre alertaram para o risco no curso do fechamento de um “acordo rebaixado” ser um franco retrocesso no apoio político e militar ao Eixo da Resistência. Pela vitória da nação persa contra o imperialismo ianque!
