A decisão do governo Trump (20/03) em suspender temporariamente as sanções ao petróleo iraniano alegando a crise energética global é uma prova inconteste que os interesses do capital financeiro estão acima da guerra dos EUA e Israel contra a nação persa e, em um conceito mais amplo, acima até mesmo dos interesses do próprio imperialismo ianque e dos Estados nacionais como o Irã. O recuo da Casa Branca demonstra que a Governança Global do rentismo ultrapassa fronteiras impondo suas ordens mesmo em meio a agressão ianque-sionista em curso, forçando as gerências nacionais (inclusive a dos EUA) a se dobrarem as suas necessidades políticas e econômicas estratégicas.
A autorização de Trump abrange a venda de petróleo iraniano atualmente armazenado no mar visando amenizar a falta de petróleo no mercado global, como vinham exigindo as grandes corporações capitalistas e os fundos rentistas. Com o início da guerra, em 28 de fevereiro, o petróleo disparou no mercado internacional e chegou a US$ 120, o maior nível desde 2022. Um dos principais fatores da disparada da commodity é o bloqueio, pelo Irã, do Estreito de Ormuz, principal rota global do petróleo, por onde passa cerca de 20% do consumo mundial. A região, que também responde por cerca de um quinto do comércio global de gás natural liquefeito (GNL), registrou forte queda no tráfego de navios nas últimas semanas, após o Irã anunciar o bloqueio da área e ataques a petroleiros.
Um exemplo de como atua a Governança Global do Rentismo é sua intervenção para proteger “South Pars” no curso da guerra, uma estrutura que explora a maior reserva de gás natural do mundo. O campo, no total, cobre cerca de 9.700 km² no Golfo Pérsico e é compartilhado entre o Irã e o Qatar. Israel atingiu “South Pars” e Trump garantiu que os EUA “não sabiam de nada” logo depois desautorizando Netanyahu a continuar os ataques… no que foi prontamente atendido. Tanques de gás e partes da refinaria foram destruídos. Esse recuo foi imposto pelo rentismo internacional que investiu na planta, via a China, que assinou um acordo com o Irã para a cooperação de 25 anos (em 2021), prevendo um volume total de investimentos transnacionais de até US$ 400 bilhões, incluindo energia e infraestrutura envolvendo o setor de hidrocarbonetos. O objetivo planejado é produzir 50 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia com desenvolvimento da fase 11 do campo, o que a Governança deseja que se concretiza apesar da guerra.
Essas decisões da Casa Branca que vão aparentemente na contramão dos interesses imediatos dos EUA e do sionismo na guerra contra a nação persa que entra hoje em sua terceira semana, reforçam nossa tese Marxista que o imperialismo assumiu uma nova forma, ainda mais sofisticada e complexa. Sendo bem objetivo, depois da II Guerra, os vários “imperialismos”, Britânico, Francês, Italiano, Japonês, Alemão e o próprio Ianque, se fundiram na base do “fogo da guerra” pela hegemonia do mercado global, em um só.
Não se tratou do surgimento de um novo “super imperialismo norte-americano”, o grande vitorioso do conflito mundial. Aliás a caracterização da possibilidade da existência de um “superimperialismo”, levantada por Karl Kautsky, foi duramente criticada por Lenin como uma “simplificação grosseira da realidade”.
A vitória ianque na Grande Guerra esmagou militarmente sua principal ameaça pela hegemonia do mercado mundial capitalista, que nem de longe era a Alemanha nazista, financiada pelos próprios norte-americanos para debilitar paulatinamente o poderio econômico do Reino Unido sobre a Europa. Estamos falando do imperialismo japonês, que na “ousadia” de atacar o território ianque na Costa do Pacífico, infringindo uma humilhação ao Pentágono, sofreu o mais duro revés já visto na história moderna, tendo suas cidades arrasadas pela debutante e aterradora bomba atômica.
Com esse movimento genocida os EUA encerram a Guerra Mundial, entrega a URSS a tarefa de liquidar o que ainda restava do nazismo no leste europeu, e assume a gerência direta de três ex-Estados nacionais imperialistas: Japão, Alemanha e Itália, que passam a ter na OTAN/Pentágono suas Forças Armadas. É o germe inicial da Governança Global do Capital Financeiro, porém existiam ainda os debilitados “semi-imperialismos” inglês e francês (já subjugados pelos EUA) e a potência econômico e militar da União Soviética.
A ameaçadora permanência da URSS no cenário internacional, onde as corporações financeiras foram expulsas durante os 18 anos da “Era Brezhev”, exigiu que o ambicioso projeto da Governança do Capital Financeiro em controlar politicamente os governos nacionais sofresse um atraso considerável.
Com o fim da chamada “Guerra Fria” nos anos 90, e a destruição contrarrevolucionária dos Estados Operários (incluindo a restauração capitalista “controlada” na China), cai a última fronteira para a Governança Global assumir o controle político de todas as economias e Estados capitalistas do planeta, desde os EUA, Europa, passando pela gigante China e até chegar a belicosa Rússia de Putin que tem mantido uma relação de cooperação com Trump, que segundo a mídia russo tem “mais confiança no presidente russo que nos aliados eu”opeus”. Entretanto este fenômeno da dinâmica de acumulação do capital planetário nas mãos de um punhado de rentistas e suas corporações transnacionais, já não possuía mais uma identidade exclusivamente nacional, como no pós guerra.

Era o nascedouro de uma Governança Global apátrida, que necessariamente não falava somente o idioma inglês, e que “batia continência” somente aos interesses de um pequeno clube de investidores do mercado financeiro, e principalmente que se sobrepunha até mesmo aos governos imperialistas, como por exemplo o da Casa Branca. A Governança Global do Capital Financeiro é uma “sofisticada evolução” política, econômica e militar do imperialismo sobre o planeta.
O conceito de uma Nova Ordem Mundial, pós destruição da antiga URSS, formulada por Henry Kissinger, o CEO fundacional do Deep State, que pressupõe a construção de uma sólida e quase “invisível” Governança Global, é portanto triunfante em Washington e Pequim.
O “segredo” da fórmula kissingerista, embora fosse conspirativa não era nada de “diabólica”, apenas a fidelidade integral para a reprodução do capital financeiro, acima de qualquer interesse particular das burguesias nacionais, mesmo que fosse a da poderosa classe dominante ianque! Em um período histórico onde o modo de produção capitalista vive sob uma agonia estrutural, ameaçado pela rebelião mundial do proletariado e dos povos oprimidos, instaurar a Governança Global do Capital Financeiro foi muito mais do que uma “ideia brilhante” de Kissinger, foi uma necessidade de sobrevivência para as grandes corporações capitalistas…
Nesse cenário os interesses do “Big Money” (interesses financeiros globais) se sobrepõem e subordinam aos da Big Pharma, Big Oil, dos empreiteiros do Departamento de Defesa, etc. As principais instituições corporativas bancárias, incluindo os fundos rentistas BlackRock, JP Morgan Chase, Bank of America, Citigroup, Wells Fargo, State Street Co., Goldman Sachs, etc… estão investindo pesado em laboratórios e na economia de guerra, incluindo o desenvolvimento de armas nucleares no âmbito do programa de armas hipersônicas. Também o 5G é uma área estratégica. O mais interessante é que esses investimentos do “Big Money” são totalmente apátridas, e ocorrem simultaneamente desde o próprio EUA, até a China, os dois principais contendores globais na conjuntura atual. Essa é exatamente a marca e o “DNA” da Governança Global!
O objetivo final é transformar os Estados nacionais (com suas próprias instituições e economia nacional) em “territórios econômicos abertos”. Esse foi o destino experimental do Iraque, Líbia, Afeganistão, Síria e agora o Irã. Por sua vez as “revoluções coloridas” pretendem ampliar em muito tal lista.
Vamos ser claros. É uma agenda imperial. O que as elites financeiras mundiais querem é quebrar (com altos níveis de endividamento) e depois privatizar o Estado para depois assumir e privatizar todo o planeta em sua governança global.
Como a Governança Global do Capital Financeiro é apátrida, não tem fidelidade com nenhuma nação específica, pode atuar tranquilamente em vários fronts de uma mesma guerra ou conflito militar regional. Assim ocorre atualmente nos confrontos bélicos na Ucrânia, na tensa arena de Taiwan e agora na guerra em curso contra o Irã.
Lenin afirmou que “A intenção impronunciável do capitalismo global é a destruição do Estado-nação e de suas instituições, o que causará pobreza mundial em uma escala sem precedentes”. Esta citação, datada de dezembro de 1915, no auge da Primeira Guerra Mundial, alerta para algumas das contradições que enfrentamos hoje. Não existe possibilidade de mediação para curso criminoso da dominação do rentismo global, as “inocentes” teses dos reformistas de “controlar e taxar” o fluxo do capital financeiro internacional, não passa de mais uma idiotice reacionária. Nesta etapa histórica não pode haver “meio termo”, ou seja, uma espécie de “capitalismo humanizado”, gerido pela esquerda Social Democrata.
A disjuntiva colocada para a classe operária internacional, exatamente quando irrompe no cenário uma nova ordem mundial ainda mais reacionária e regressiva, não pode ser outra: Socialismo ou Barbárie!
Os Marxistas Leninistas logicamente devem se guiar pelos interesses históricos do proletariado mundial, devem aproveitar cada “rachadura” na sólida (mas não invencível) parede da Governança Global, sempre estimulando o confronto com o inimigo mais nocivo para a classe operária internacional.
Neste sentido nos opomos frontalmente a ilusão reformista de “construir um novo mundo multipolar”, onde a Governança Global assumiria um caráter neutral diante das aspirações nacionais dos países e governos. Esse cretinismo pacifista poderá semear derrotas significativas para as massas e conceder una sobrevida para a agonizante economia capitalista.
Os Trotskystas, somos partidários da Revolução Socialista Mundial, ou seja a guerra de classes, o que significava concretamente preparar o proletariado para assumir o controle total das nações, impulsionando cada derrota local da Governança e de seus gerentes estatais fantoches, principalmente o que ainda se “entroniza” no que restou da herança na vitória militar da II Guerra Mundial, o imperialismo ianque que neste momento está em guerra junto com o enclave terrorista de Israel contra a nação persa!
