Para aqueles revisionistas do Marxismo, que afirmam que a participação nas eleições burguesas é um princípio absoluto da esquerda, deveriam ler as resoluções do Comintern (III Internacional Comunista) entre 1919 e 1922, reunidas nas atas do II Congresso Mundial em um documento histórico. O Comintern delimitava claramente a destruição do Estado burguês como a perspectiva estratégica na utilização tática dos Leninistas em suas intervenções nas eleições burguesas. A III Internacional também orientava a não participação dos Partidos Comunistas em disputa para cargos executivos do Estado capitalista.
O Partido Comunista dos EUA, seguindo a orientação programática do Comintern, adotou explicitamente a política de não apresentar candidatos a cargos executivos, distinguindo-os dos postos legislativos, nas eleições norte-americanas que ocorreram em 1920. Essa correta posição do PC norte-americano logo se transformou em uma regra geral da grande maioria das organizações do Comintern.
Vale rememorar que nos anos 20, e até o fim da II Guerra Mundial, a esmagadora maioria dos principais países europeus (Inglaterra, França, Alemanha, etc…) não possuíam regimes de governo presidencialista, e muito menos estados provinciais, como ocorria nos Estados Unidos desde sua formação como nação. Portanto a resolução da III Internacional sobre as eleições burguesas recaia com maior peso político justamente no PC estadunidense, que não hesitou em nenhum momento em impulsionar firmemente as orientações do Comintern.
Um documento particularmente importante é a circular de Grigori Zinoviev, presidente do Comitê Executivo da Internacional Comunista, de 1º de setembro de 1919, intitulada “Letter to Comintern-Affiliated Parties on Parliamentarism and the Soviets”.
Zinoviev estabelece uma distinção fundamental: A questão da agitação e propaganda revolucionária nas eleições parlamentares como forma de desmascarar o Estado burguês e a questão da apresentação de candidaturas comunistas para a disputa a cargos executivos nacionais do Estado capitalista, são duas questões diferentes.
Zinoviev ressaltava que esta posição do Comintern não significava abandonar necessariamente as eleições em geral ou a tribuna parlamentar: “A participação eleitoral deveria ser determinada pelas circunstâncias concretas”.
O documento da III Internacional chega a citar os Bolcheviques, que participaram de determinadas eleições e utilizaram a Duma czarista, não porque reconhecessem a legitimidade daquela instituição como forma de tomada de poder, mas para utilizá-la como tribuna na luta revolucionária.
Este registro histórico é importante porque já em 1919 a orientação oficial do Comintern era: “Boicotar as eleições burguesas para governos nacionais”, embora pudesse admitir a participação dos Partidos Comunistas em eleições locais ou municipais (comunais).
As “Teses sobre a Questão Parlamentar”, aprovadas pelo II Congresso da Internacional Comunista, afirmam:“O ‘anti-parlamentarismo’ de princípio […] como recusa absoluta e categórica em participar nas eleições […] não é mais do que uma doutrina infantil e ingênua.”
E, logo depois, estabelecem uma ressalva muito importante: ”A utilidade da ação parlamentar não significa participar necessariamente de todas as eleições em todas as circunstâncias”.
Em uma carta aberta do “Communist Party” dirigida a Eugene V. Debs, dirigente sindical de grande prestígio e candidato a presidente dos EUA pelo Partido Socialista, aproximadamente em maio de 1920, o PC explica sua política eleitoral e conclama Debs a abolir todos os cargos executivos de sua chapa: “Do presidente ao governador, o Partido Comunista não lança candidatos”.
Esse documento é extremamente relevante para os Marxistas Leninistas e foi suprimido por stalinistas e revisionistas por várias décadas, exatamente porque demonstra nitidamente que a distinção entre cargos legislativos e executivos realmente existia dentro do “Movimento Comunista Internacional” naquele momento. Lançar candidaturas “da esquerda comunista” para presidente das repúblicas capitalistas, significava assumir a administração direta do Estado burguês e, portanto, deveria ser cabalmente rejeitada segundo os Bolcheviques Lenin e Trotsky, dirigentes da III Internacional.
